sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

O QUE É SER ALFABETIZADO NA VISÃO DOS EDUCADORES.


Josiane Tomasella Bordignon

O domínio da leitura/escrita, a alfabetização, o estar alfabetizado são questões muito debatidas no âmbito escolar. Mas, qual é a visão do alfabetizador? O significado é o mesmo para todos?

No processo de alfabetização a visão do alfabetizador é muito importante, pois segundo Kramer (1995), é de acordo com essa visão que ele vai encaminhar o processo em sala de aula.

Desde o final da década de 80, mudanças têm ocorrido no conceito de alfabetização. O enfoque amplia-se – do aprendizado da escrita passa a ser compreendido também como leitura de mundo. O aluno passa de receptor de informações, a sujeito da construção da escrita. Essas mudanças resultam de pesquisas como as de Ferreiro(1993).

Jolibert (1994, p.14-15), salienta que o aprendizado da leitura e da escrita deve ocorrer em situações reais, onde estas tenham uma função social concreta, e que a tarefa do aprendiz seja basicamente a de buscar o sentido do texto. Acredita que devemos nos tornar leitor a medida que aprendemos a ler e assim também deve ser com a escrita.

Com a implementação do Ciclo Básico, a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, propõe mudanças decorrentes de novas concepções pedagógicas, contrariando a visão mecanicista que reduz a alfabetização ao simples ato de codificar/decodificar, para acentuar a compreensão da função social da escrita.

Em meio a essas mudanças estão os professores, que em sua maioria foram ensinados e aprenderam a alfabetizar com o método tradicional. Diante da nova proposta, como estão trabalhando, o que valorizam no processo de alfabetização? O que é estar alfabetizado?

Pretendendo averiguar “ o que é ser alfabetizado” no entender de quem alfabetiza, foi realizado um estudo com doze professoras de quatro escolas públicas de Ensino Fundamental da cidade de Rio Claro. As professoras cujo tempo de magistério variam de dois a vinte anos, foram indicadas (três por escola) pela diretora ou coordenadora pedagógica, tomando-se por critério ter experiência com alfabetização e estar lecionando na 1ª ou 2ª série.

A entrevista semi-estruturada foi gravada e partiu da questão: - o que é um aluno alfabetizado ? Por vezes, dependendo das respostas, outras questões foram propostas. Foram apresentadas às professoras sete escritas de alunos para que observassem e descrevessem os pontos relevantes de cada uma.

Para averiguar se a concepção de cada professor é compartilhada com o grupo, ou se é individual, esta análise é feita no âmbito de cada escola.


ESCOLA 1

Nesta escola as três professoras foram unanimes na utilização do termo decifração, mas em discursos diferentes.

A professora A (8 anos de magistério), admite durante sua fala que a prontidão é necessária para a criança se alfabetizar. Alfabetizado, para ela, é aquele que domina a estrutura silábica e sabe decodificar. Comenta ainda, que aluno alfabetizado deve escrever com letra cursiva.

A professora B (10 anos de magistério), procura mostrar que sua concepção sobre alfabetização é baseada no construtivismo e cita Ferreiro. Comenta sobre a importância de identificação de códigos, utiliza as fases da escrita (de maneira confusa), mas em certo momento de seu discurso, diz que o aluno alfabetizado é aquele que consegue decodificar.

Observando as escritas dos alunos, acentua mais a questão estrutural da escrita do que a compreensão.

A professora C (20 anos de magistério), com muita experiência em alfabetização, se demonstra-se enfática na utilização do método tradicional, e classifica como alfabetizado aquele que sabe ler e escrever silabas simples. Para ela, a partir do momento que estão decodificando , estão alfabetizados. Outro ponto que julga relevante é o aluno dominar a letra cursiva.

Para ela, é importante o aluno saber interpretar um texto, e não ler como papagaio. Essa interpretação é colocado por ela são respostas a questões referentes à um texto.

Faz uso das fases da escrita para observar as dificuldades dos alunos, posteriormente dividir a classe em fileiras para trabalhar atividades diversificadas, observe sua fala: Então eu divido a classe, eu do trabalhos diversificados, am existe momentos que eu consigo trabalhar com a classe toda, mas não é sempre porque eles não conseguem acompanhar. Então eu tenho que fazer um trabalho diversificado com os diversos níveis que eu tenho na classe.

As manifestações dessas professoras têm pontos em comum – alfabetizado é o aluno que sabe decodificar, compreende a estrutura silábica, que podemos entender o que escreve.

As professoras A e C, demonstraram valorizar a letra cursiva nos escritos dos alunos. Micotti (2001), acredita que no período inicial de construção da escrita não há necessidade de exigir dos alunos mais que um tipo de letra; textos manuscritos podem estar presentes, mas no dia-a-dia, a letra de imprensa é mais comum.

Podemos observar que as concepções de trabalho das professoras dessa escola não se diferem muito, valorizam o aprendizado de palavras, a decifração e deixam de lado a escrita como objeto cultural.

ESCOLA 2

As respostas das professoras desta escola revelam que consideram na alfabetização mais do que a simples decodificação. As falas são diferenciadas, mas visam formar um aluno mais competente na utilização da escrita.

A professora D (15 anos de magistério), salienta que aluno alfabetizado é aquele que consegue escrever com independência: ...ele consegue ter clareza daquilo que ele quer escrever. ...não é aquele aluno assim que coloca dois s, ç, não é necessariamente isso, mas é um aluno que consegue escrever com independência, ele consegue ter clareza daquilo que quer escrever.

Observa erros ortográficos nas escritas de alunos apresentadas, e comenta que estes “levam” para a escrita muito da oralidade, por exemplo: escrevem domino, em vez de dormindo. Esse tipo de dificuldade ela disse trabalhar naturalmente, com a produção de outros escritos.

Um trecho interessante de sua fala é quando ela faz referência a um dos escritos dizendo que a criança está em processo, precisa ser trabalhada, é preciso fazer dela um leitor e um escritor.

Segundo a professora E (11 anos de magistério), aluno alfabetizado é aquele que consegue se comunicar utilizando a escrita. Acredita ser importante o aluno saber para que serve socialmente saber ler e escrever, portanto, conhecer a função social da escrita.

A professora F (9 anos de magistério), diz que alfabetizado é aquele que tem domínio sobre a leitura e a escrita, e ainda ... tem essa ligação entre o que fala e o que escreve, am... tem organização no pensamento, consegue transpor as suas idéias.

Essa professora demonstrou preocupação em trabalhar a escrita com compreensão, a organização das idéias e até mesmo a oralidade.

A questão da ortografia foi comentada por todas as professoras ao analisarem as escritas dos alunos, porém não é tratada como grande problema. Para elas é normal que a criança apresente erros, pois é com o trabalho mais detalhado do professor, a produção de outros escritos e com leituras que esses desaparecerão.

As falas destas professoras focalizam a alfabetização de modo mais amplo que decodificar e memorizar. Acentuam a importância da escrita na comunicação, o domínio da leitura e escrita com compreensão. Indicam que o aluno precisa compreender acima de tudo a função social da escrita. Embora, a professora E, tenha sido a única a mencionar a expressão “função social da escrita”, as demais também a apontam.

ESCOLA 3

Na caracterização do que seria um aluno alfabetizado para as professoras desta escola, percebemos diferenças e aspectos comuns.

As professoras G e I, têm uma visão bastante aproximada do que seja alfabetizado. Mais do que saber ler e escrever, para elas é importante ter compreensão e entendimento do que se lê e do que se escreve. Observem o discurso das professoras G e I, respectivamente, em resposta a questão inicial.

É quando a criança além de saber ler e escrever ela tem entendimento daquilo que ela tá lendo e escrevendo. Eu acho que mesmo que não esteja conseguindo atingir todas as normas ortográficas, gramaticais, tudo, eu acho que se ela tem o entendimento daquilo que ele leu e escreveu u outras pessoas conseguem ter o mesmo entendimento, mesmo que contenha erros, ainda eu acho que ele está alfabetizado. (2 anos de magistério)

É aquele que compreende o sentido das mensagens orais e também escritas, que utiliza o linguagem pra expressar seus sentimentos, suas experiências, suas idéias. ( 10 anos de magistério)

A professora G, faz uma colocação relevante diante da escrita V : ...eu não sei se quando as crianças escrevem só palavras isoladas podem ser consideradas alfabetizadas.

Para Jolibert (1994), o aluno vai se aproximar da escrita em contato com textos, vai ler e produzir textos, dessa forma entende-se que escrever palavras isoladas e fora de contexto não o tornaria alfabetizado.

A professora H (14 anos de magistério), considera alfabetizada a criança que é entendida através daquilo que escreve, que ao ler o que escreve descobre erros na escrita, mas em nenhum momento atribui valor à compreensão dos escritos.

Observem sua fala em relação à escrita V: ...desde que ela consiga produzir um texto com seqüência de idéias, com palavras assim, am... mesmo que ela não saiba por uma sílaba complexa, mas tenta recorrer a letra que chega mais perto daquele som eu acho que ela tá alfabetizada. A professora não utiliza palavras como memorizar, decodificar, mas refere-se a divisão da aprendizagem da escrita em sílabas simples e complexas. A produção de escritos mencionada está relacionada à temas ou reescrita de histórias infantis. Em relação ao uso de textos prontos como ocorre no ensino tradicional, isso caracteriza um avanço, porém em relação à proposta de Jolibert (1994), que sugere a utilização de textos reais de comunicação ainda há muito a ser explorado. Weisz ( São Paulo, Estado, 1988) coloca a importância do trabalho com textos, mas não textos de livros didáticos, e sim aqueles que fazem parte do dia-a-dia dos alunos como de jornais, cartas, bilhetes.

Podemos dizer que, de modo geral essas professoras procuram seguir uma linha de trabalho onde valorizam os textos. Isso não significa abandono do método tradicional, mas sugere esforço, sobretudo por parte de duas delas, para trabalhar outros aspectos além da decifração.

ESCOLA 4

O discurso das professoras desta escola tem muito em comum, revelando concepções amplas de alfabetização.

Para a professora J ( 6 anos de magistério), acredita que o aluno precisa entender o que lê , não apenas decodificar sílabas. Observem sua fala em relação à questão inicial: Numa frase não adianta ele decodificar as sílabas, as letras, sem saber o significado daquilo, então ele deveria saber o significado de um cartaz, uma carta, um bilhete.

A professora k ( 10 anos de magistério) descreve como alfabetizada a criança que...consegue comunicar o que ela deseja expressar...ela quer escrever um bilhete pra mãe, então ela pensa no bilhete e ela consegue colocar o pensamento no papel.

Essa professora em seu discurso deixou claro que trabalha muito com a oralidade, que segundo ela é a base para chegar na comunicação escrita. Observa-se também em seu discurso que valoriza a letra cursiva, observem sua fala em relação a escrita III : essa daqui tá mais bonitinha, tá com letra de mão.

Em resposta a questão inicial a professora L ( 2 anos de magistério), disse: Eu acredito que alfabetização não é só leitura, decodificação tanto que eu não gosto de trabalhar com o procedimento da silabação...eu gosto de trabalhar a compreensão dessa leitura.

Embora, esta professora tenha uma visão mais ampla em relação a alfabetização, também defende o uso da letra cursiva.

O primeiro ponto a ser analisado das falas dessas professoras refere-se à decifração. Duas professoras deixam claro que aluno alfabetizado não é o que sabe decodificar uma mensagem, mas aquele que compreende a mensagem. A outra não fala em decifração, mas sua descrição de aluno alfabetizado se aproxima muito a das demais, sugerindo postura semelhante.

As palavras utilizadas pelas professoras são compreender, comunicar, entender, mensagem, que diferem das privilegiadas no ensino tradicional.

As professoras desta escola já ultrapassaram barreiras em relação ao ensino tradicional. Admitem que o trabalho com textos é mais produtivo e permite ao aluno compreender a função social da escrita. Procuram abandonar a silabação e trabalhar com situações reais de comunicação. Isso ainda não ocorre durante todo o período de aulas, mas observa-se certa tendência em superar a visão tradicional. Há consenso entre as professoras no modo de trabalhar o aprendizado da leitura e da escrita e as suas concepções de aluno alfabetizado têm muitos pontos em comum.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As falas da maioria das professoras entrevistadas sugerem mudanças na concepção de alfabetização. Apontam para uma visão mais ampliada que proporcione ao aluno ter uma formação mais significativa do ponto de vista cultural e social.

As práticas restritas do ensino tradicional como decodificação, memorização, mecanização estão sofrendo influência da proposta construtivista. Isso está acontecendo de modo gradativo, pois a mudança requer além da disponibilidade do professor, embasamento teórico.

Analisando pelo critério escola, concluímos que em duas escolas (2 e 4) as alfabetizadoras procuram seguir uma linha de trabalho onde privilegia-se mais que a decifração, estão caminhando de forma a valorizar a escrita enquanto objeto cultural. Não podemos dizer que desenvolvem um trabalho construtivista, mas procuram orientar-se em tal proposta.

Na escola (1) seguem praticamente a mesma linha de trabalho, onde valoriza-se a decodificação e o estudo de palavras isoladas. O que sugere um enfoque tradicional da alfabetização. Embora utilizem as fases da escrita, não é para acompanhar o progresso dos alunos na construção da escrita, mas para classificá-los.

Na escola (3), a proposta de trabalho não é comum a todas. Duas professoras têm falas aproximadas, mas fica claro que uma delas tem mais embasamento teórico que a outra. A terceira professora apesar de conhecer a proposta, pois na sua fala demostra isso, não consegue deixar de lado aquela proposta de trabalho onde se sente mais segura.

Estes dados nos permitem concluir que embora as manifestações dessas professoras não correspondam à proposta construtivista, procuram abandonar os métodos tradicionais e assumir posturas mais voltadas para essa proposta pedagógica. Procuram propiciar aos alunos condições de entendimento, compreensão dos escritos e da função do sistema de escrita, abandonando ( mesmo que com pequenos passos) a visão mecanicista do ensino da leitura e da escrita.

Observou-se, portanto neste estudo que a concepção do que seja alfabetizado está se ampliando, de forma a garantir uma formação mais ampla ao aprendiz na leitura e na escrita.


Referências

BRASIL, Ministério da Educação e do Desporto. Parâmetros Curriculares Nacionais. Brasília, 2001.

FERREIRO, E; TEBEROSKY, A. Psicogênese da linguagem escrita. Tradução D. M. Lichtennstein, L. Di Marco e M. Corso. Porto Alegre: Artes Médicas, 1985.

FERREIRO, E. Reflexões sobre alfabetização. Tradução de H. Gonzales. São Paulo: Cortez, 1993.

JOLIBERT, J. Formando Crianças Leitoras. Tradução de B. C. Magne. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.

_______, Formando Crianças Produtoras de textos. Tradução de W. N. F. Settineri e B. C. Magne. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.

KRAMER, S. Alfabetização Leitura e Escrita - Formação de Professores em curso: Papéis e Cópias de Botafogo e Escola de Professores, 1995.

MICOTTI, M. C. de O. Alfabetização: o ensinar e o aprender. In: ___________ (Org). Alfabetização: entre o dizer e o fazer. Rio Claro: Instituto de Biociências, Unesp, 2001.

________ Os Professores perguntam. In: ____________ (Org). Alfabetização: entre o dizer e o fazer. Rio Claro: Instituto de Biociências, Unesp, 2001.

SÃO PAULO (Estado) Secretaria da Educação, Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas. Ciclo básico em jornada única: uma nova concepção de trabalho pedagógico. São Paulo, FDE, 1988.

WEISZ, T. Por trás das letras. São Paulo: FDE. Diretoria Técnica, 1994.

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